Há histórias que começam antes mesmo de a primeira cena ser filmada. A de Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), parece ter encontrado seu primeiro capítulo não nas telas, mas nos documentos de uma investigação da Polícia Federal.
Ao retirar o sigilo de documentos relacionados ao caso, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornou público um relatório no qual a PF aponta uma questão central: é preciso esclarecer de onde vieram, por onde passaram e para onde foram os recursos utilizados para financiar a produção do filme.
No centro dessa história aparece um nome pouco familiar ao público brasileiro: Havengate Development Fund LP. Sediado nos Estados Unidos, o fundo recebeu US$ 12,33 milhões enviados pela Entre Investimentos e Participações ao longo de 2025. Para os investigadores, chama atenção o fato de os valores das transferências serem semelhantes às parcelas previstas em um acordo de financiamento de US$ 24 milhões destinado à produção do longa.
O detalhe que transforma uma simples movimentação financeira em ponto de investigação está na própria história do fundo.
Criado em 2020 para um empreendimento imobiliário no Texas, o Havengate não chegou a ser utilizado para aquela finalidade. Permaneceu inativo por quase quatro anos, até ser reativado justamente no período em que passou a receber os recursos relacionados ao filme.
É aí que a narrativa ganha contornos de suspense financeiro. Não se trata, segundo a PF, de afirmar que houve irregularidade, mas de perguntar se o caminho percorrido pelo dinheiro é compatível com a finalidade original do veículo financeiro e com a destinação declarada dos recursos.
No cinema, cada detalhe pode ter uma explicação escondida nas cenas seguintes. Nos documentos de uma investigação, também.
E, neste caso, a PF quer justamente saber o que aconteceu entre a origem dos milhões e o destino que eles encontraram. O fundo criado para um projeto imobiliário no Texas, abandonado por anos e depois reativado, tornou-se uma das peças desse quebra-cabeça.
Enquanto Dark Horse pretende contar a trajetória de um personagem político conhecido por transformar a própria vida em espetáculo, fora das telas outra história começa a ser montada — desta vez com extratos, contratos, transferências internacionais e perguntas ainda sem respostas definitivas.
Por enquanto, o que existe é uma investigação e a necessidade, apontada pela Polícia Federal, de esclarecer os caminhos do dinheiro. O restante da história ainda depende dos documentos, das explicações e das conclusões que vierem a seguir.