PF aponta Flávio Bolsonaro como interlocutor direto de Daniel Vorcaro nas negociações para financiar filme sobre Jair Bolsonaro
Há histórias que começam nos bastidores e, de repente, chegam ao centro do palco. A que envolve o filme Dark Horse, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, ganhou novos contornos depois que a Polícia Federal afirmou que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) mantinha contato direto com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, nas tratativas para financiar a obra.
A afirmação consta de documento enviado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo a PF, as mensagens encontradas no celular de Vorcaro indicam que Flávio Bolsonaro não aparecia apenas como alguém mencionado por terceiros. Ele próprio seria um dos interlocutores nas conversas sobre o dinheiro destinado à produção — cobrando pagamentos, marcando encontros e acompanhando o andamento das gravações.
“Tais elementos indicam que o Senador FLÁVIO NANTES BOLSONARO não aparece apenas como terceiro mencionado em comunicações de outras pessoas, mas como interlocutor direto de DANIEL VORCARO em tratativas relacionadas ao financiamento da produção, inclusive com cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento do andamento das gravações”, afirma a Polícia Federal.
Os registros analisados pela corporação apontam contatos entre os dois a partir de agosto de 2025.
Em 20 de agosto, uma conversa registrou a proximidade física entre os dois. Flávio informou a Vorcaro que estava “a caminho”, segundo a investigação.
Dias depois, em setembro, a conversa deixou de ser apenas sobre encontros e passou a tocar diretamente no dinheiro. Em 8 de setembro, Flávio teria enviado um áudio cobrando pagamentos relacionados ao filme e demonstrando preocupação com os compromissos assumidos com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.
Vorcaro, segundo a PF, pediu desculpas e afirmou que tentaria resolver a situação.
“Em 08/09/2025, FLÁVIO BOLSONARO encaminhou mensagem de áudio a DANIEL VORCARO cobrando os pagamentos do filme, demonstrando preocupação com o risco de inadimplemento perante o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. DANIEL VORCARO, em resposta, pediu desculpas e afirmou que tentaria resolver a situação”, registra o documento.
Em outubro, a cobrança teria voltado à cena.
No dia 22, Flávio informou que as gravações já estavam no terceiro dia e que a produção se encontrava “no limite”. Pediu ainda que Vorcaro avisasse caso não conseguisse realizar o aporte. A razão era prática: seria necessário buscar outra solução para manter o projeto em andamento.
E é justamente nesse ponto que uma produção cinematográfica passa a se encontrar com uma investigação policial.
O dinheiro por trás do filme
O ministro André Mendonça determinou a abertura de investigação para apurar a atuação de Flávio Bolsonaro no financiamento de Dark Horse. O procedimento examina suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros possíveis crimes.
A investigação foi solicitada pela Polícia Federal e recebeu aval da Procuradoria-Geral da República (PGR). A decisão, tomada em julho, tornou-se pública após a retirada do sigilo de investigações relacionadas ao caso Banco Master.
De acordo com as informações reunidas pela PF, Flávio Bolsonaro teria procurado Daniel Vorcaro em busca de aproximadamente R$ 130 milhões para financiar a produção. Planilhas apreendidas durante a investigação indicariam que cerca de R$ 60 milhões teriam sido repassados.
São números que, por si só, transformam uma conversa de bastidores em algo muito maior.
De um lado, está um filme sobre Jair Bolsonaro, envolvendo nomes de Hollywood e uma produção internacional. Do outro, uma investigação que tenta reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro e entender quem negociava, quem pagava e com que finalidade.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades. Afirma que os recursos destinados ao filme tiveram origem privada.
No fim, como costuma acontecer nas histórias em que política, dinheiro e poder dividem o mesmo roteiro, as mensagens podem ser apenas o começo. Agora, cabe à investigação esclarecer o que havia por trás delas. Com informações da Jovem Pan.